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Metade de mim

Metade de mim

12
Dez16

A espera

Eu

Chegados ao hospital, foste recebido por um neurocirurgião, de forma a fazer uma avaliação do que se passava.

 

Fui estacionar o automóvel no parque de estacionamento do hospital e quando cheguei às urgências, os bombeiros - impecáveis desde a primeira hora - disseram-me que o médico queria falar comigo.

 

Foi feito o rastreio inicial, a nivel de hábitos de consumo e tentar entender quanto tempo tinha passado desde a ocorrência.

 

Passado algum tempo - que para mim foram horas intermináveis - chamaram-me, dando-me então a indicação que terias tido um AVC hemorrágico, em local inoperável e que irias ficar em observação até estares estável e depois serias transferido para o hospital da nossa área de residência (agora há um sistema com o nome de via verde, onde as pessoas são levadas para o hospital que tenha pronta a equipa médica para os receber e que não é necessariamente o hospital da área de residência).

 

Tiveste o AVC pouco depois das 10h, voltaram a chamar-me somente às 17h, dando indicação que irias ser transferido.

 

Não sei o que fiz naquelas horas. Sei que não comi, sei que só estava atenta se me chamavam e que fui uma vez ao balcão de informação, perguntar se havia novidades, ao que me responderam que não, que continuava em estado critico e não sabiam mais nada.

 

Foi nessa altura que me caiu a ficha, literalmente, e que percebi que se calhar, as coisas não tinham sido tão leves como pensava.

 

Lembro-me de ligar para o part-time que tinha arranjado quando decidimos mudar o curso das nossas vidas a dar indicação do que se tinha passado e de ligar para a minha mãe.

 

Resolvi não dizer nada a mais ninguém, até saber concretamente o que se passava, para não estar a alarmar ninguém ( e porque continuava convicta que seria uma coisa relativamente simples).

 

Quando às 17h me disseram que irias ser transferido, perguntei qual a gravidade da situação.

 

Lembro-me que quem veio falar comigo foi uma médica ainda nova, cujos olhos se encheram de lágrimas após indicar-me que o prognóstico era muito reservado.

 

Sem saber como, fui para o parque de estacionamento, sem dinheiro suficiente para tirar o carro.

 

Não sei como, lembrei-me de ligar para um amigo nosso, que morava não muito longe dali e que me foi levar o dinheiro (não entendo como é que um parque de estacionamento de um hospital não pode ser pago com multibanco... a partir daí, nunca mais andei sem dinheiro na carteira).

 

A seguir, liguei para a tua irmã, a dizer-lhe o que se passava e a perguntar se ela podia ir ter contigo ao hospital, que eu tinha que ir a casa buscar-te um pijama (acho que era o meu escape a querer que as coisas se resolvessem a bem rapidamente).

 

Chegaste ao hospital da nossa área de residência às 19h.

 

A tua irmã, o teu cunhado e o teu sobrinho já lá estavam.

 

A tua irmã foi ver-te e dizer-te que estava tudo bem. Diz que percebeste. Hoje em dia, dúvido.

 

Essa foi a tua primeira noite fora de casa.

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